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os quatro retratos

Uma coleção de figuras, retratos e silhuetas

Trata-se da coleção de um retrato só, em que o arquivo fotográfico é atravessado pela vida - por isso a escolha do título Trans Bio Grafia -  mediante apropriação e deslocamento de cinco ampliações de um mesmo negativo, cuja imagem suscita singular afecção.  São reproduções do mesmo retrato de uma menina que posa na frente de um pano branco.  Quatro delas equivalem à totalidade da película negativa,  onde se vê parte do lugar em que o pano de fundo foi montado, sem promover inteiramente o deslocamento da identidade da menina para um campo neutro ideal, limpo de acidentes ou de elementos significantes, isento e sem marcas. Na quinta foto, há o corte da imagem, em razão do qual o fundo branco passa a sangrar as margens do papel daí sim, deslocando em parte identidade da menina para um território indefinido. 
Há o especial interesse pela materialidade destes arquivos cujo corpo fisicamente palpável propicia leituras da realidade e de seus contextos - identidades,  procedimentos, costumes de um lugar ou época- , assim como  a criação de memórias afetivas singulares, coletivas, subjetividades, fábulas. 
Além do tema do contexto do retrato fotográfico, o projeto tematiza a repetição da imagem e sua virtual diferenciação, problematizando as distintas afecções produzidas a cada mirada (desejo, curiosidade, espanto, encanto...) e os potenciais percursos em espaços movediços propensos à dramatização de outras narrativas possíveis. 
 

cartão postal

 

No caminho, busca-se a intersecção com o trabalho dos seguintes artistas:

 

-Seydou keïta (Retratos no estúdio- Instante de dignidade) segundo texto de Jacques Leenhardt, utiliza a pose, a mis en scéne,  os panos de fundo como forma de dar dignidade ao retratado, tornando as imagens atemporais. Inspira-se nas poses de pinturas - souwéres.  No mesmo texto,  o  pano de fundo - tirar/por panos de fundo na fotografia, importa adicionar/subtrair significados, atualizar.  O ritual de esquecimento do entorno, importa ativação de identidades que repousam na memória - Os retratos de Meissa Gaye tem a particularidade de não permitir que o espectador perceba com clareza em que locais as imagens foram realizadas. - Rosângela Rennó  “...sou uma colecionadora compulsiva, gosto da fiscalidade, da materialidade das coisas. Por exemplo, as fotos dentro dos álbuns, os slides nos carrosséis, os envelopinhos  antigos para guardar negativos. Quando comecei a trabalhar com apropriação, lidava basicamente com fotografias de família, escolhidas por uma razão subjetiva. (...) Observando os retratos de identificação, compreendi a complexidade que envolve essa coisa simples e banal que aparentemente é um retrato 3x4...”(depoimento de R.R. A Maria Angélica Melendez e Wander Melo Miranda, no estúdio da artista, RJ, 27 de maio de 2001. -Duane Michals #Things are queer” 1973  - Oumar Ka - “duas mulheres em frente a uma casa com teto de palha” - Moholy Nagy - “Produção e Reprodução” -  Manoel de Barros - 

o negativo

Ela tem uma panca inabalável na frente do pano branco na frente do muro do beco. De braços cruzados agilíssimos em esperar aguarda a exposição luminosa, espreitando o momento do disparo da câmera que virá para lançá-la a outros mundos. Num instante, a viagem da imagem é infinita para todos os olhos, mesmo os amarelados. É comovente a figura e suas roupas que não envelhecem, apenas se desgastam passivamente pela fricção dos afetos. Mas o que enternece mesmo, nem se sabe como, não é a pose, o conjunto da figura, o olhar ou o sorriso, mas a ausência de um animal camaleão naquele beco, Impossível mimetizar a brancura da asa da garça com a rude pele de sapo do muro, parede que faz da rua um beco, todo carcomido.

o retrato

o quinto retrato

a menina e suas sombras

  Colecionar silhuetas

  Quando a figura de um retrato insiste em durar, são seus aspectos mais diversos que variam para dar corpo ao misterioso salto animal para fora da imagem. Aparições na forma de sentidos resgatados chegam assim sem avisar e, em síntese, se instauram. Ao colecionar silhuetas, enigmas são criados. Decifrá-los exige ficar ali por um tempo. Decifrá-los é mesmo matutar em longa estrada.

  Pode-se reproduzir e reproduzir infinitamente o incansável e inesgotável negativo fotográfico, sem que nada impeça, a cada mirada, emergir da figura uma nova silhueta que salta para ganhar mundo próprio e diferentes cenários.

   

silhueta no sobrado

silhueta, gaiola e pássaro

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a menina e seus possíveis