Uma coleção de figuras, retratos e silhuetas

Cinco ampliações de um mesmo negativo foram encontradas em um arquivo fotográfico.  Trata-se do retrato de uma menina que está na frente de um pano branco. Quatro das cinco imagens  são o retrato de corpo inteiro, equivalente ao negativo da foto.  Na imagem aparece a menina, o pano branco ao fundo, do qual se vê desbordar a parede e o chão.  A quinta foto impressa no papel é o resultado do corte escolhido pelo fotógrafo quando da ampliação do negativo. Nela  aparecem o rosto e o busto da menina. Aqui, o fundo branco "sangra" as margens do papel, deslocando a imagem do negativo para um território indefinido. 
A imagem é cativante talvez em razão da pose clássica adotada pela retratada, com braços cruzados, estampando no rosto um quase sorriso e um olhar intrépido, ou talvez pelo conjunto das vestes utilizadas. 
Contudo, o retrato (o negativo e as quatro reproduções) torna-se interessante quando deixa entrever o lugar atrás do pano de fundo, as pistas a respeito de suas circunstâncias. Antes do corte, ao não promover inteiramente o deslocamento da identidade da menina fotografada para um campo neutro ideal, limpo de acidentes ou de elementos significantes, isento e sem marcas, é que a imagem suscita singular afecção.
Diante da imagem capaz de provocar tal afeto aflora um especial interesse na apropriação do arquivo fotográfico e de percorrer seus espaços movediços propensos a dramatizar e a expor possíveis narrativas. No caminho, busca-se a intersecção com o trabalho dos seguintes artistas:

Sendo conhecido que a família à qual pertenceu a fotografia viveu em Salvador  é possível inferir que a foto foi tomada pelos anos 1940 na Bahia.

Tem-se, assim, um lugar e uma época, podendo-se inferir que foi produzida para uso documental, num tempo em que a fotografia era compreendida como o meio mais exato de representação do real. 

 

-Seydou keïta (Retratos no estúdio- Instante de dignidade) segundo texto de Jacques Leenhardt, utiliza a pose, a mis en scéne,  os panos de fundo como forma de dar dignidade ao retratado, tornando as imagens atemporais. Inspira-se nas poses de pinturas - souwéres.  No mesmo texto,  o  pano de fundo - tirar/por panos de fundo na fotografia, importa adicionar/subtrair significados, atualizar.  O ritual de esquecimento do entorno, importa ativação de identidades que repousam na memória - Os retratos de Meissa Gaye tem a particularidade de não permitir que o espectador perceba com clareza em que locais as imagens foram realizadas. - Rosângela Rennó  “...sou uma colecionadora compulsiva, gosto da fiscalidade, da materialidade das coisas. Por exemplo, as fotos dentro dos álbuns, os slides nos carrosséis, os envelopinhos  antigos para guardar negativos. Quando comecei a trabalhar com apropriação, lidava basicamente com fotografias de família, escolhidas por uma razão subjetiva. (...) Observando os retratos de identificação, compreendi a complexidade que envolve essa coisa simples e banal que aparentemente é um retrato 3x4...”(depoimento de R.R. A Maria Angélica Melendez e Wander Melo Miranda, no estúdio da artista, RJ, 27 de maio de 2001. -Duane Michals #Things are queer” 1973  - Oumar Ka - “duas mulheres em frente a uma casa com teto de palha” - Moholy Nagy - “Produção e Reprodução” -  Manoel de Barros - 

a afecção do retrato retirado do arquivo

Ela tem uma panca inabalável, na frente do pano na frente da parede do beco.

De braços cruzados agilíssimos de esperar, espera o tempo da exposição luminosa à espreita do disparo da câmera fotográfica que a lançará a outros mundos latentes.

No instante, a viagem da imagem é infinita para todos os olhos do mundo, mesmo os amarelados.

É comovente a figura e suas roupas que não envelhecemapenas desgastam passivamente pela constante fricção dos afetos.​

Mas o que enternece mesmo, nem se sabe como, não é a pose, o conjunto da figura, o olhar gazelante ou o sorriso, mas a ausência visível de um camaleão naquele beco.

É impossível mimetizar o alvo farfalhar da asa da garça com a rude pele de sapo.

O muro que faz da rua um beco está todo carcomido.​​

  Colecionar silhuetas

  Quando a figura de um retrato insiste em durar, são seus aspectos mais diversos que variam para dar corpo ao misterioso salto animal para fora da imagem. Aparições na forma de sentidos resgatados chegam assim sem avisar e, em síntese, se instauram. Ao colecionar silhuetas, enigmas são criados. Decifrá-los exige ficar ali por um tempo. Decifrá-los é mesmo matutar em longa estrada.

  Pode-se reproduzir e reproduzir infinitamente o incansável e inesgotável negativo fotográfico, sem que nada impeça, a cada mirada, emergir da figura uma nova silhueta que salta para ganhar mundo próprio e diferentes cenários.

   Na coleção de silhuetas não há apenas rostos, fisionomias, semblantes, faces, frontes, vultos, figuras indistintas, contornos, perfis, corpos, indícios, vestígios e traços mas também sintomas, espíritos, fantasmas, espectros, marcas, nódoas, simulacros, segredos, penumbras, trevas, estatura, robustez, substância, carcaça, defunto, cerne, eixo, essência, miolo, concretude, consistência, espessura, densidade e volume.